Defensoria Publica: como ter advogado de graca
Pensão do filho que o pai não paga. Benefício do INSS negado sem explicação. Ameaça de despejo. Divórcio que não sai. Conta cobrada errada e nome sujo injustamente. Todo mundo conhece alguém travado em um problema desses por um único motivo: não ter dinheiro pra pagar advogado.
O que pouca gente sabe é que a Constituição garante advogado de graça pra quem não pode pagar, e existe uma instituição inteira só pra isso: a Defensoria Pública. Este guia explica quem tem direito, o que ela resolve e como conseguir atendimento.
O que e a Defensoria Publica
A Defensoria Pública é o órgão do Estado formado por defensores públicos, que são advogados concursados pagos com dinheiro público pra defender quem não tem condições de contratar um advogado particular.
Não é favor, não é caridade e não é advogado “de segunda”. Defensor público passa em um dos concursos mais difíceis do país e faz o mesmo trabalho de um advogado particular: orienta, entra com ação, acompanha o processo e recorre até o fim.
E o mais importante: além do advogado de graça, quem é atendido pela Defensoria normalmente também tem direito à justiça gratuita, ou seja, não paga as custas do processo.
Quem tem direito
A regra geral é simples: tem direito quem não pode pagar advogado sem prejudicar o próprio sustento.
Na prática, cada Defensoria define um corte de renda pra presumir essa necessidade. O valor varia de estado pra estado, mas costuma ficar em torno de 3 salários mínimos de renda familiar mensal. Quem ganha menos que o corte é atendido direto. Quem ganha um pouco mais, mas tem gastos altos com saúde, muitos dependentes ou outra situação especial, pode ser atendido depois de uma análise do caso.
Você declara a renda no atendimento e pode precisar comprovar com contracheque, carteira de trabalho ou declaração. Mentir na declaração pode virar problema sério, então seja honesto.
Existem duas Defensorias, e isso importa
Esse é o detalhe que mais confunde as pessoas, e que faz muita gente bater na porta errada.
Defensoria Pública do Estado (DPE): cuida das causas da Justiça Estadual, que são a maioria do dia a dia. Pensão alimentícia, divórcio, guarda dos filhos, despejo e problemas de aluguel, inventário, briga de consumidor com loja ou banco, defesa criminal, medida protetiva.
Defensoria Pública da União (DPU): cuida das causas da Justiça Federal, que envolvem órgãos federais. O exemplo número um é o INSS: benefício negado, cortado ou atrasado que precisa ir pra Justiça. Também entram causas contra a Caixa e outros órgãos federais.
Regra de bolso: problema com INSS é DPU. Problema de família, moradia e consumo é DPE. Se você procurar a errada, ninguém te deixa perdido, eles indicam a certa, mas saber a diferença economiza uma viagem.
Antes de judicializar contra o INSS, vale esgotar o caminho administrativo. Em caso de suspeita de erro no valor, por exemplo, entenda primeiro como funciona a revisão de aposentadoria. Quando o INSS nega e o recurso interno não resolve, aí a DPU entra em cena.
O que a Defensoria resolve na pratica
A lista é longa. Os atendimentos mais comuns:
- Pensão alimentícia: pedir, aumentar, diminuir ou executar a pensão atrasada
- Divórcio e união estável: inclusive quando o outro sumiu ou não concorda
- Guarda, visitas e reconhecimento de paternidade
- Benefícios negados pelo INSS, como aposentadoria, pensão e auxílios (via DPU)
- Despejo, cobrança abusiva de aluguel e usucapião
- Inventário de família de baixa renda
- Consumidor: nome negativado injustamente, cobrança indevida, produto ou serviço com problema. Pra entender seus direitos antes do atendimento, veja o guia de direitos do consumidor de baixa renda
- Saúde: ação pra conseguir remédio ou tratamento que o poder público negou
- Defesa criminal de quem não tem advogado
- Violência doméstica: medidas protetivas e acompanhamento
- Registro civil: certidão de nascimento tardia, correção de nome
Além dos processos, a Defensoria faz muita coisa sem precisar de Justiça: acordos, mediação de conflitos de família e vizinhança, orientação jurídica e mutirões.
Como conseguir atendimento, passo a passo
- Descubra a unidade certa. Pesquise “Defensoria Pública” com o nome do seu estado pra DPE, ou “DPU” com a sua cidade pra causas do INSS. Os sites oficiais têm a lista de unidades e os canais de agendamento. Muitas Defensorias atendem por telefone e WhatsApp.
- Agende ou vá presencialmente. Algumas unidades atendem por ordem de chegada de manhã cedo, outras só com agendamento. Vale ligar antes.
- Leve os documentos. RG, CPF, comprovante de residência, comprovante de renda (ou carteira de trabalho, mesmo sem registro) e tudo que tiver do problema: contratos, cartas do INSS, boletos, conversas, boletim de ocorrência.
- Passe pela triagem. No primeiro atendimento, um servidor confere a renda e entende o caso. Depois você é encaminhado pro defensor ou pra equipe responsável.
- Acompanhe. Guarde o número do seu atendimento e os telefones da unidade. Processo demora, mas você tem direito de saber como está o seu.
E se a minha cidade nao tem Defensoria?
Ainda existem comarcas sem defensor, principalmente em cidades pequenas. Nesses lugares, o juiz nomeia um advogado dativo, que é um advogado particular pago pelo Estado pra fazer a defesa de graça. O caminho é procurar o fórum da cidade e informar que precisa de assistência jurídica gratuita. Em alguns estados, a OAB mantém convênios pra isso.
Outra saída, pra causas de consumo e cobranças de menor valor, é o Juizado Especial, onde causas de até 20 salários mínimos podem ser abertas sem advogado. É um caminho que merece um guia próprio, mas já fica a dica de que ele existe.
Como se preparar pra o atendimento render
A diferença entre resolver na primeira visita e ter que voltar três vezes costuma estar na preparação. Antes de ir:
- Monte uma linha do tempo simples. Num papel ou no bloco de notas do celular, escreva as datas principais do problema: quando começou, o que aconteceu em cada etapa, com quem você falou. Na hora do nervosismo, isso evita esquecer detalhes que mudam o caso.
- Junte toda prova que existir. Conversa de WhatsApp, e-mail, boleto, contrato, recibo, foto, carta do INSS, boletim de ocorrência. Leve original ou imprima, e se der, organize por data. Prova solta na memória não sustenta processo.
- Leve os dados da outra parte. Nome completo, CPF ou CNPJ se tiver, endereço e telefone de quem você quer processar ou de quem te deve. Sem saber quem é e onde encontrar a pessoa ou empresa, o processo não anda.
- Anote suas perguntas. O atendimento pode ser rápido, então escreva antes as três ou quatro dúvidas que você não pode sair sem resposta.
- Chegue antes do horário. Em unidades de ordem de chegada, a fila começa cedo. Ir no primeiro horário aumenta muito a chance de ser atendido no mesmo dia.
E uma boa notícia dos últimos anos: boa parte das Defensorias estaduais atende também a distância, por WhatsApp, formulário no site ou e-mail, principalmente pra triagem e envio de documentos. Antes de encarar deslocamento, confira no site da Defensoria do seu estado se dá pra abrir o atendimento sem sair de casa.
Quanto custa
Nada. Nem consulta, nem processo, nem “taxa de abertura”. Se alguém se apresentar como intermediário da Defensoria cobrando qualquer valor, é golpe. O único gasto possível é o seu deslocamento até a unidade.
Perguntas frequentes
Preciso estar desempregado pra ser atendido?
Não. O critério é a renda da família, não a situação de emprego. Trabalhador registrado com renda dentro do corte é atendido normalmente.
A Defensoria demora mais que advogado particular?
O processo na Justiça corre no mesmo ritmo pros dois. O que pode ter fila é o primeiro atendimento, porque a procura é grande. Chegar cedo e com todos os documentos acelera muito.
Posso trocar a Defensoria por um advogado particular depois?
Pode, a qualquer momento. E o contrário também: se você começou com particular e não pode mais pagar, pode procurar a Defensoria.
A Defensoria atende quem esta preso ou familiar de preso?
Sim. A defesa criminal de quem não tem advogado é uma das funções principais, e a família pode procurar a unidade pra levar informações do caso.
Ganhei a causa. Preciso pagar alguma coisa?
Não. E se houver condenação da outra parte, o valor é seu. A Defensoria não fica com porcentagem de nada.
Resumindo
Falta de dinheiro não pode ser motivo pra engolir injustiça. Se a renda da sua família está em torno de 3 salários mínimos ou menos, você tem advogado de graça garantido por lei: DPE pra família, moradia e consumo, DPU pra INSS e órgãos federais. É só juntar os documentos e procurar a unidade mais perto.
Você já foi atendido por uma Defensoria? Conta nos comentários como foi a experiência na sua cidade, isso ajuda outros leitores a saberem o que esperar.
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